Entrevista: "Boa parte das feridas (do mensalão) foi curada", diz Humberto Costa

Após reintegração de Delúbio, líder do PT diz que maior escândalo do governo Lula é página virada até para eleitores.

BRASÍLIA – O senador Humberto Costa, líder do PT no Senado, se diz favorável à refiliação do ex-tesoureiro Delúbio Soares, mas acha que o momento não era oportuno. Ainda que haja desgaste para o PT com a reintegração do pivô do mensalão, Costa não teme um abalo no partido com a volta do tema, que ele considera “página virada”: “Na balança do eleitor, entre erros e acertos, pesou mais o que o PT fez de positivo para o Brasil”.
Com o fortalecimento do grupo paulista no comando do PT, Costa adverte: São Paulo e seus interesses não podem conduzir a política da legenda. Ele foi preterido por Rui Falcão na disputa pela presidência da sigla, numa articulação conduzida por José Dirceu.
A volta de Delúbio Soares ao PT e a influência de José Dirceu na escolha de Rui Falcão não acabarão influindo no julgamento do caso do mensalão no Supremo Tribunal Federal?
HUMBERTO COSTA: Eu achava que não era o momento oportuno (de Delúbio ser refiliado). Mas ninguém tem o direito de perpetuar uma punição exclusivamente porque a Justiça não se manifestou. Achava que essa incorporação do Delúbio agora poderia atrair os holofotes para o processo (do mensalão) e terminar servindo como uma pressão sobre o STF. Vai terminar trazendo o assunto para a pauta. Mas ele deve ter feito o cálculo do preço político dessa decisão. Mas sou favorável à sua volta.
Mas essa volta não desgasta a imagem do PT?
COSTA: Delúbio não sofreu nenhuma condenação. Eu, que vivi essa situação em escala bem diferente (foi citado no escândalo da máfia dos vampiros, quando era ministro da Saúde, e inocentado pelo STF), tenho convicção de que ele terá condição de provar sua inocência. Mas será esse o melhor momento para ele próprio?
A volta de Delúbio é o pagamento de uma dívida de gratidão do PT, já que o ex-tesoureiro assumiu sozinho o ônus e não saiu falando sobre outros nomes?
COSTA: Não! De jeito nenhum. Sua reintegração tem a ver com a militância que ele teve dentro e fora do partido.
Passados quase seis anos, com o retorno de personagens do caso, significa que o mensalão é uma página virada para o PT?
COSTA: Eu acredito que sim. Mas enquanto não houver o julgamento… quando acontecer, ano que vem ou no outro, tudo volta à tona, requentado. Fatalmente, a gente vai viver novamente algum tipo de desgaste. Mas acho que, do ponto de vista do eleitorado, é uma situação um pouco mais superada. O partido tirou as lições que deveria desse episódio. Boa parte das feridas foi curada.
O eleitor já não assimila mais o mensalão quando escolhe os candidatos petistas? Houve uma banalização do caixa dois?
COSTA: O PT sofreu muito com isso. Em 2006, podíamos ter tido um desempenho muito melhor. Sofremos em 2008, mas nessa eleição de 2010 não teve mais muito peso, embora alguns companheiros não tenham conseguido se reeleger. Na balança do eleitor, entre erros e acertos, pesaram mais os acertos, pesou mais o que o PT fez de positivo para o Brasil.
A paulistização do PSDB sempre gerou crises. Agora esse é o perfil do PT. O que muda no partido daqui para a frente?
COSTA: Olhando o perfil da direção do PT, é obvio que há um predomínio importante dos integrantes de São Paulo. Isso não significa que a política estará submetida aos interesses do PT de São Paulo. As pessoas que estão à frente do partido conhecem o PT nacional e sabem que o nosso partido é nacionalmente organizado e eleitoralmente muito forte no Norte e no Nordeste. E saberão implantar uma política que leve isso em consideração. Ou seja, o fato de termos muitos dirigentes paulistas não vai paulistizar a politica nacional do PT.
Essa recomposição de forças é um sinal de que o PT vai jogar tudo na eleição de São Paulo ano que vem?
COSTA: O fato de o partido ter muita gente de São Paulo não significa que o olhar do PT vai se dirigir exclusivamente para São Paulo. Na disputa municipal temos presença muito forte no Brasil inteiro. Mas, inegavelmente, nos interessa fortalecer São Paulo. É a principal base de nossos adversários. É importante consolidar em São Paulo essa hegemonia que temos nacionalmente.
Com a influência de José Dirceu em sua montagem, fica uma imagem ruim da nova direção do partido?
COSTA: São lideranças históricas do PT. O assunto do mensalão ainda não se resolveu depois de quase seis anos. Queremos que a Justiça julgue logo.
Lula disse que o PT vai ficar 20 anos no poder. Alguns interpretaram que sua conta são quatro anos para Dilma e mais oito para ele…
COSTA: É lógico que esse projeto ainda precisa de tempo para se consolidar. Oito anos numa história de 510 anos é muito pouco para construir um projeto como esse. Então, é lógico que queremos mais tempo para consolidá-lo. Mas temos a exata noção de que é inerente à democracia a alternância de poder. Sou supersticioso com esse negócio de 20 anos no poder. Já vi outras vezes essa profecia dar em água.
Com Dilma, o PT fica mais forte?
COSTA: O PT tende a desempenhar um papel muito importante neste governo. Não tem muito a ver com o perfil da Dilma em comparação ao de Lula. Tem mais a ver com o amadurecimento do PT. No primeiro governo Lula, o PT não tinha muita clareza sobre qual era o papel do partido e o papel do governo. Em 2003, quem montou o governo foram pessoas da direção do partido. Por isso houve tanta trapalhada ao longo do processo. Depois o PT identificou que o papel ideal era o de dar apoio e suporte ao governo, sem se confundir com o governo.
Fonte: Maria Lima, Gerson Camarotti e Diana Fernandes, do jornal O Globo.
Foto: Agência Senado.

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