Entrevista: "Faço uma avaliação muito positiva", diz Humberto sobre o primeiro ano de mandato


O senador Humberto Costa (PT) mudou o tom de voz desde novembro passado. Está com um timbre mais grave e menos rouco depois de passar por uma cirurgia nas cordas vocais. Mas ele também calejou o discurso político para 2012. Prestes a repassar a liderança do PT no Senado, onde se destacou como o 13º político mais influente do Congresso Nacional e o primeiro de Pernambuco, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Humberto se prepara para um novo papel na eleição do Recife. Em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco, o senador admitiu que o PT pensa numa saída caso o prefeito João da Costa (PT) desista de concorrer à reeleição. O senador aposta na recuperação política do aliado e garante que “ninguém o tira da cadeira” se ele quiser concorrer à reeleição. Mas ressalta que, se o prefeito não unir a Frente Popular, terá de ter “altruísmo e altivez para escolher outro nome”. Algo que ele mesmo e outros correligionários já fizeram.
Humberto negou ser candidato à prefeitura, mas é certo que opinião dele terá um peso singular na escolha do prefeiturável do partido. Depois de ser alvo de críticas dos dois Joões, na eleição de 2008, a roda girou ironicamente a favor de Humberto e lhe rendeu cacife para ser o fiel da balança. “Se há um grupo dentro do PT que ele (João da Costa) não pode reclamar, que recebeu apoio absoluto e total lealdade, é o nosso”. “Mudança só se o prefeito se convencer que é necessária”, declara.
Qual é a avaliação que você faz do seu primeiro ano de mandato?
Faço uma avaliação muito positiva. Primeiro, fui escolhido líder do PT e do bloco. São trinta senadores que lidero hoje. Para uma pessoa de primeiro mandato, foi um passo muito positivo. Acho que cumpri de forma bastante satisfatória essa responsabilidade. A defesa do governo, de transformar o PT, que era um aglomerado de senadores, em uma bancada com funcionamento coletivo e que divide responsabilidades. A liderança foi estruturada. Segundo, foi positivo porque eu consegui apresentar muitas proposições no Senado e algumas tem uma repercussão importante, como a Lei de Responsabilidade Sanitária. Espero que, nesse ano que entre, ela seja aprovada. Sempre batalhei por isso, é uma maneira de definir a responsabilidade dos estados e municípios e do governo federal e também de atribuir responsabilidades aos que não cumprirem estas obrigações. Eu falo em atribuir ao gestor (prefeito, secretário, governador, presidente, ministro). E outras importantes que já foram aprovadas, o fim do cheque-calção, o benefício para as mulheres vítimas de violência doméstica, a regulamentação do comércio eletrônico. Também fui relator de algumas matérias importantes, mas eu destaco duas. Uma foi a medida provisória que permitiu a vinda da Fiat para Pernambuco e a outra foi a regulamentação da Emenda 29. Afora isso, eu tive, modéstia à parte, reconhecimento dos jornalistas que acompanham o Congresso. Fui eleito o 13º parlamentar mais influente do Congresso pelo Diap e o mais influente de Pernambuco. Também recebi o prêmio Congresso em Foco pela minha atuação na área da saúde.
Existe possibilidade de o senhor assumir a liderança do governo no Senado, como se especulou este ano?
Existem dois nomes que podem ficar no meu lugar. Um é o senador Walter Pinheiro (PT-BA), o outro é Wellington Dias (PT-PI). Eu vou assumir, a partir do próximo ano, a vice-presidência do PT. Não acredito que possa vir a assumir a liderança do governo, é uma possibilidade remota. O Senado tem um equilíbrio de forças e de poder que depende muito da relação do PMDB com os partidos de oposição. Nesse momento ainda é importante que seja um parlamentar do PMDB. Pode ser que mais à frente possa ser um do PT, mas nesse momento, é necessário que o líder do governo no Senado seja do PMDB.
Essa sua influência vai pesar na escolha do candidato à Prefeitura do Recife?
Da mesma forma que João Paulo, que os nossos deputados, os nossos vereadores, o presidente Lula, o governador Eduardo, outros irão opinar, eu acredito que, nesse meio, eu deva dar uma opinião, que não é a mais importante que a de ninguém.
Como está a sua relação com o prefeito João da Costa? Vocês têm conversado sobre o governo e as dificuldades políticas ou ele não é do tipo que não escuta muito?
Estamos aguardando que ele marque uma nova conversa, mas todas as conversas têm sido boas, o melhor possível, até porque é um relacionamento pautado na sinceridade. Tudo que eu penso, digo a ele; tudo que ele pensa, ele me diz. O prefeito sabe que nós somos absolutamente leais a ele e ao governo. Aliás, esta sempre foi a principal característica da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB). Nós demos apoio absoluto e integral ao governo João Paulo, apoiamos, embora todos saibam da divergência que tínhamos, o processo de 2008. Apoiamos e participamos da campanha de João da Costa, participamos do governo, demos apoio integral na Câmara e, mesmo naquela hora que a gente não sabia para onde iria a biruta, nós defendemos o governo João da Costa. Se há um grupo dentro do PT de quem ele não pode reclamar que recebeu apoio absoluto, total e lealdade, foi a CNB. No momento mais difícil que ele vivia politicamente, nós demos apoio e solidariedade, ajudamos a colocar quadros lá dentro da prefeitura. Não nos sentimos credores de nada, porém, não há como fazer qualquer tipo de reparo a nossa postura.
Mas a tendência de vocês (a CNB) reduziu o prazo para João da Costa…
Eu fiz questão de repetir várias vezes que não era um ultimato. Mas, quanto mais o PT demorar a resolver a sua situação, se é João da Costa, se é João Paulo, se é Jesus Cristo… Quanto mais o PT demorar para ter essa definição, mais difícil vai ser construir a unidade da Frente Popular. Existem várias candidaturas postas, esses candidatos vão começando a tomar gosto, as bases desses partidos vão começando também a tomar gosto e, lá na frente, vai ser mais difícil fazer todo mundo voltar atrás. Se o PT quer liderar uma frente, precisa se resolver o mais rapidamente possível, até o final de fevereiro, o PT poderia ter a sua posição. Fizemos uma alerta porque deixar passar muito é consolidar um risco grande de múltiplas candidaturas e nós não defendemos isso.
Vocês avaliam a possibilidade de ter cometido um erro político ao impedir que João Paulo saísse do PT e ficasse na oposição a João da Costa?
Não, foi absolutamente correto. Primeiro, João Paulo é um quadro do PT e toda identidade histórica dele é com o nosso partido. Não poderíamos perder um quadro desse. Segundo, se ele tivesse saído do PT, ele certamente seria candidato com muita força, com uma larga frente de apoio e muitas chances de vitória. Então, a permanência de João Paulo foi muito boa para o PT e excelente para João da Costa.
E se o PT precisar trocar o candidato, qual será o discurso de vocês para a população: “olha, desculpa, mas esse não deu certo e vamos mudar”?
Só haverá mudança de candidato se o prefeito se convencer de que isso é necessário. Ninguém tira da cadeira e da reeleição alguém que está exercendo o poder. Se ele se convencer que não deve sair, deve ser candidato, acho que (…) Na verdade, nós temos várias razões, nosso governo tem um problema político de origem que foi a divisão entre João Paulo e João da Costa. É como se a gente tivesse cometido um pecado original, isso ai é um problema muito grave. O outro é que a saúde do prefeito inviabilizou durante dois anos o exercício pleno da função. Apesar da grande recuperação que a prefeitura vem tendo, resgatando a imagem, o que vai definir o processo é a política. Então, se não for possível unir a frente, é uma razão política. Caso ele tome a decisão de não disputar, não faltam argumentos plausíveis. O problema não são os argumentos.
O senhor acha o prefeito poderia fazer esse gesto, de dizer, ‘se eu não vou ser o candidato, quero um nome que una o PT’?
Eu não trabalho com essa hipótese. Trabalho que ele será o candidato. Agora, eu vejo ele como muitos políticos do PT que tem, não somente o bom senso, mas o compromisso partidário, ideológico e político. Se, em algum momento, não for o melhor caminho a candidatura dele, tenho certeza que ele tem altivez e altruísmo suficiente para escolher outro nome, não é problema. Eu acho que todos têm a capacidade de, reconhecendo as dificuldades, tomar uma atitude como essa. Mas acredito que vai ser lá pela frente um caminho bem pavimentado e acho que ele será o candidato.
O senhor poderia ser o candidato a prefeito do Recife?
Não. O presidente Lula quer que eu permaneça onde estou (no Senado), a presidente Dilma quer que eu permaneça, contribuindo para Pernambuco e para o Brasil. Qualquer candidatura tem que ser objeto de um longo consenso, sem o qual qualquer candidato sairia bastante fragilizado.
E Maurício Rands poderia ser um tercius como se fala no Palácio?
Para que haja um tercius, é preciso que o prefeito não seja candidato, que o nome de João Paulo não una, mas esse tercius teria que ter densidade eleitoral e ser um nome que unisse o PT e a Frente Popular. Rands ou qualquer outro que vier preencher os pré-requisitos poderá ser. Eu não vejo, agora, nem João Paulo, nem João da Costa com condições de unir a frente e PT. Tem muito tempo pela frente, o partido deu a coordenação da sucessão a João da Costa e ele declarou, publicamente, que vai começar a fazer esse trabalho a partir de janeiro. Vamos aguardar a conclusão desse trabalho.
E como o senhor está vendo a relação do PT com o PSB? O senhor acha que o PSB está ensaiando romper com o PT no Recife?
Acho que não. Eu vejo que o PSB, o PTB, vários desses partidos têm força e legitimidade política para apresentar qualquer nome à Frente Popular. Esse foi o motivo da apresentação do nome de Fernando Bezerra Coelho, de Silvio Costa Filho. Acho que eles estão dando a contribuição para a unidade. Qual é (a contribuição) do PT? Vamos encontrar um denominador comum. Acho que o PSB vai trabalhar por essa unidade, até porque o PT tem a precedência da candidatura na cidade do Recife e o PT tem sido o aliado mais fiel do governador ao longo desses cinco anos que Eduardo Campos governa Pernambuco.
Muitas lideranças do PSB têm feito ponderações de que João da Costa precisa melhorar. O PT também tem essas ponderações para o governo Eduardo?
Acho que o governo vai bem, tem grandes realizações, grande aprovação. Pode existir algumas questões mais secundárias onde possamos ter pontos de vistas diferentes. Se algum dia formos convidados a emitir essa opinião, nós emitiremos, mas não aqui (na entrevista). O partido que governa durante 11 anos uma cidade como Recife não é um partido sem capacidade de interpretação da realidade. O modo petista de governar é um modo consagrado em todo o Brasil. Estamos completando 12 anos à frente da prefeitura com uma grande possibilidade de continuar. O Recife cresceu, mudou, diminui as desigualdades tanto com João da Costa, como com João Paulo. Então, essas críticas, eu não as vejo com fundamento.
O PT se preocupa com Eduardo Campos no cenário nacional?
Não, pelo contrário, é bom que um partido com um perfil de esquerda como o PSB cresça e se fortaleça. É bom até para o próprio governo Dilma, porque nós saímos um pouco da dependência do PMDB, de outros partidos que têm uma formação ideológica menos consistente. Não temos nos preocupado com Eduardo porque ele tem dito o tempo inteiro que o grande compromisso dele para 2014 é com Dilma e não temos razões para não acreditarmos nisso. Eduardo é um governador competente, preparado, que tem encantado as mais diversas plateias políticas e empresariais, tem uma visão avançada sobre o Brasil e termos um quadro político com esse perfil é muito bom para o Brasil.
E essa dubiedade, essa aproximação que Eduardo tem tanto com vocês quanto com o PSDB?
Isso é uma demonstração de que ele tem uma grande capacidade de articulação e isso pode até ser bom para nós, na nossa relação política, porque ele pode ser um canal de diálogo com a oposição, embora nós também tenhamos nosso canal com a oposição.
E com relação ao governo Dilma. A queda de tantos ministros não passa a impressão de que todos calçam 40?
Acho que Dilma emplacou uma agenda positiva, uma agenda social, de saúde, de educação, de erradicação da miséria; emplacou uma excelente agenda na questão econômica, remanejou, de forma competente, o controle da inflação, o crescimento do país; continuou a dar ritmo às obras de infraestrutura, focando na copa do mundo. As pesquisas de opinião mostram que ela emplacou uma agenda positiva. Lógico que tivemos vários problemas de ordem política. No governo Lula, o fogo era direcionado para os ministros do PT, para fragilizar o partido, nessa nova conjuntura do governo Dilma, a estratégia tem sido atacar os aliados para tentar quebrar a aliança política que sustenta Dilma. Quando você tem uma aliança muito grande e uma oposição frágil, a tendência é você trazer as contradições para dentro da aliança e criar briga entre os próprios partidos. Os problemas existem, mas a postura dela tem sido muito firme. Agora que ela vai poder escolher os ministros com o perfil que considera, tenho certeza que ela vai melhorar ainda mais.
Fonte: publicado no Blog de Humberto Costa,
com texto de Aline Moura, do Diario de Pernambuco.

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